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Os caminhões elétricos já demonstram viabilidade econômica em diferentes operações logísticas no Brasil. É o que aponta o estudo Soberania Energética e Competitividade: Panorama da Eletrificação de Frotas Logísticas no Brasil, edição 2026, desenvolvido pela iniciativa Gigantes Elétricos. O levantamento reúne dados de mercado e experiências de sete empresas que já utilizam veículos elétricos ou avaliam a adoção da tecnologia.

Entre os principais resultados estão a redução de 60% a 70% nos custos de energia por quilômetro rodado e a diminuição de 20% a 30% nas despesas com manutenção preventiva, em comparação com veículos a diesel. Além disso, os relatos dos operadores indicam que, em aplicações de alta intensidade de uso, o custo total de propriedade (TCO) dos modelos elétricos pode alcançar valores equivalentes ou até inferiores aos dos veículos convencionais.

O estudo também mostra que a eletrificação deixou de ser apenas uma discussão ambiental. A redução das despesas operacionais, a menor dependência dos combustíveis fósseis e a previsibilidade dos custos de abastecimento passaram a integrar as decisões estratégicas das empresas de transporte.

Caminhões elétricos ganham espaço com redução dos custos operacionais

Um dos exemplos apresentados pelo levantamento é o do Grupo Dia Entregue. Segundo Rêmulo Lugão, fundador e CEO da empresa, a diferença entre os gastos com energia e combustível pode ser expressiva.

Na comparação apresentada pelo executivo, uma operação com 800 veículos a combustão consome aproximadamente R$ 2,05 milhões por mês em combustível. Já para abastecer 800 veículos elétricos, o gasto mensal com energia fica em torno de R$ 190 mil.

A experiência reforça o potencial de redução das despesas de abastecimento, especialmente em operações com grande volume de veículos e utilização intensiva.

Outro fator que favorece a eletrificação é a eficiência energética. Diferentemente dos motores a combustão, que perdem grande parte da energia em forma de calor, os sistemas de tração elétrica apresentam eficiência de conversão superior a 90%, conforme os dados reunidos no estudo.

Na prática, isso significa aproveitar melhor a energia consumida e reduzir o custo por quilômetro percorrido. Para transportadoras que realizam trajetos frequentes e previsíveis, essa diferença pode representar uma vantagem importante na composição dos custos.

Manutenção de caminhões elétricos pode custar até 30% menos

A simplificação mecânica também aparece entre os benefícios apontados pelos operadores. Os motores elétricos dispensam diversos componentes presentes nos sistemas convencionais, como filtros de óleo, correias, embreagens e sistemas de injeção.

Com menos peças sujeitas ao desgaste, as despesas com manutenção preventiva podem ser reduzidas entre 20% e 30%, segundo as modelagens utilizadas no relatório.

A experiência do Grupo Dia Entregue também chama a atenção nesse aspecto. De acordo com Rêmulo Lugão, a empresa registrou redução de até 70% nas demandas de oficina e relata veículos em operação há quatro anos sem falhas graves nos motores ou nas baterias.

A confiabilidade mecânica, associada à menor necessidade de intervenções, contribui para aumentar a disponibilidade dos veículos e reduzir períodos de imobilização.

Rotas de 100 a 300 km favorecem a eletrificação

A aplicação dos caminhões elétricos depende diretamente das características da operação. Segundo o levantamento, grande parte das viagens de carga e distribuição no Brasil concentra-se em trajetos de 100 a 300 quilômetros por dia, distâncias compatíveis com a autonomia das baterias disponíveis e com a possibilidade de recarga nas garagens das transportadoras.

Esse cenário favorece operações urbanas, distribuição regional e circuitos logísticos dedicados, nos quais os veículos percorrem rotas conhecidas e retornam regularmente à base.

Outra possibilidade é a chamada recarga por oportunidade. Na operação da Lots Group, por exemplo, a energia pode ser recuperada durante as paradas para carregamento e descarregamento de mercadorias.

Segundo Pedro Silvestrini, vice-presidente de Estratégia, Vendas e Novos Negócios da empresa, os intervalos de 20 a 30 minutos nas docas podem ser aproveitados para recarregar as baterias, sem a necessidade de criar paradas adicionais exclusivamente para essa finalidade.

Essa estratégia permite integrar o abastecimento à rotina logística e aproveitar melhor o tempo em que o caminhão já estaria parado.

Infraestrutura de recarga ainda é o principal desafio

Apesar dos avanços, o estudo destaca que a expansão dos caminhões elétricos depende de investimentos que vão além da aquisição dos veículos.

A ausência de uma rede de recarga rápida e de alta potência nas rodovias aparece como uma das principais barreiras, especialmente para transportadores que realizam viagens interestaduais e operações de longa distância.

Enquanto empresas com trajetos dedicados conseguem instalar carregadores próprios em garagens e centros de distribuição, os operadores que dependem de itinerários mais extensos precisam contar com uma infraestrutura pública que ainda não está suficientemente desenvolvida.

O levantamento também identifica outros obstáculos, como o preço inicial dos veículos, as dificuldades de acesso ao crédito, a disponibilidade de peças, a abrangência da assistência técnica e a incerteza sobre o valor de revenda.

Essas questões têm impacto direto sobre o custo total de propriedade. Embora a operação elétrica possa apresentar despesas menores ao longo do tempo, o investimento inicial ainda representa uma barreira para transportadoras que não dispõem de capital ou financiamento adequado.

A situação fica evidente no depoimento de um operador de pequeno porte ouvido pelo estudo, que mantém uma frota convencional de aproximadamente 20 caminhões. Para esse perfil de empresa, a falta de pontos de recarga nas estradas e a autonomia necessária para cumprir viagens mais longas dificultam a decisão de migrar para a tecnologia.

Fabricantes asiáticos avançam no mercado de caminhões elétricos

O espaço ainda não ocupado pelas montadoras tradicionais vem sendo aproveitado por fabricantes asiáticos. Segundo o panorama, empresas como SANY, XCMG, BYD, JAC e Foton ampliaram a oferta de modelos elétricos, especialmente nos segmentos médios e pesados.

O relatório cita levantamentos que apontam preços entre R$ 1,8 milhão e R$ 1,9 milhão para determinados modelos pesados da SANY, enquanto equivalentes de marcas tradicionais podem chegar a aproximadamente R$ 2,5 milhões.

O documento também destaca experiências que demonstram a evolução da tecnologia em aplicações mais exigentes. Entre elas está a operação realizada pela transportadora Gelog, que utilizou um cavalo-mecânico elétrico da SANY para subir o Sistema Anchieta-Imigrantes tracionando dois contêineres, em uma composição de aproximadamente 50 toneladas.

Na mineração, o estudo menciona caminhões elétricos de 72 toneladas em operação, além de projetos de validação em atividades do setor canavieiro.

Por outro lado, o levantamento aponta que as montadoras tradicionais ainda precisam avançar na oferta de caminhões pesados elétricos produzidos em escala no Brasil, com metas e cronogramas públicos para o mercado nacional.

Eletrificação também pode ajudar a atrair motoristas

Além dos ganhos financeiros e operacionais, os caminhões elétricos apresentam benefícios relacionados às condições de trabalho dos motoristas.

A redução de ruídos, vibrações e emissões dentro dos ambientes de operação proporciona uma condução mais confortável. O estudo registra uma média de satisfação de 4,33 pontos, em uma escala de 1 a 5, entre os condutores das transportadoras consultadas.

Na Lots Group, uma das operações com caminhões elétricos e-Delivery, da Volkswagen Caminhões e Ônibus, é realizada exclusivamente por mulheres.

Para Pedro Silvestrini, a condução mais suave e silenciosa é um diferencial valorizado pelas profissionais.

A mudança também pode contribuir para tornar a atividade mais atrativa em um cenário de escassez de motoristas qualificados, além de ampliar oportunidades de inclusão no transporte.

Matriz elétrica brasileira favorece a transição energética

Outro ponto destacado pelo panorama é a condição energética do Brasil. Mais de 85% da eletricidade gerada no país vem de fontes renováveis, característica que favorece a redução das emissões associadas à operação dos veículos elétricos.

O estudo também chama a atenção para o chamado curtailment, que ocorre quando a geração de energia, especialmente eólica e solar, precisa ser reduzida por limitações do sistema elétrico ou por excesso de oferta em determinados momentos.

Nesse contexto, a eletrificação das frotas pode representar uma oportunidade de aproveitar parte dessa energia renovável, ao mesmo tempo em que reduz a dependência do diesel e a exposição das transportadoras às oscilações do mercado internacional de petróleo.

Além dos benefícios econômicos, a substituição de veículos a combustão contribui para melhorar a qualidade do ar, principalmente em centros urbanos e regiões com grande concentração de operações logísticas.

Eletrificação dos caminhões depende de ação conjunta do setor

Na avaliação apresentada pelo estudo, o Brasil reúne condições para ampliar a participação dos caminhões elétricos no transporte de cargas. Entretanto, a consolidação desse mercado depende de uma atuação coordenada entre montadoras, transportadoras, embarcadores, instituições financeiras e poder público.

Entre as medidas apontadas estão a ampliação da infraestrutura de recarga, a oferta de linhas de financiamento específicas, a estruturação de serviços de pós-venda e a criação de condições comerciais que reduzam os riscos do investimento.

O relatório também destaca a importância de as montadoras tradicionais assumirem maior protagonismo, utilizando suas estruturas industriais, redes de concessionárias e braços financeiros para ampliar a oferta de veículos elétricos pesados no mercado nacional.

A conclusão é que a tecnologia já apresenta resultados concretos em operações específicas, mas sua expansão em escala nacional ainda depende da construção de um ecossistema capaz de atender às diferentes realidades do transporte rodoviário de cargas.

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Fonte: Portal O Carreteiro

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